Entrevista com o designer Ricardo Esteves Gomes

A entrevista feita por email com o designer Ricardo Esteves Gomes, esclarece o processo para se criar uma família tipográfica e quais os primeiros passos para entrar no mercado de fontes digitais. Ricardo tem fontes à venda no site MyFonts e já foi citado aqui no blog. Veja também o resultado da entrevista: um artigo no Cadernos de Tipografia.

Qual sua idade e sua formação?
Tenho 26 anos e sou graduado em Desenho Industrial, com habilitação em Programação Visual, pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES.

Você é capixaba. Sempre atuou no Espírito Santo ou já trabalhou em outros locais?
Sempre trabalhei e morei aqui mesmo, no Espírito Santo. Na verdade minha experiência profissional no campo design é ainda bastante modesta, visto que concluí minha graduação a menos de dois anos atrás. Trabalhei em poucas empresas e a maior parte do meu portifólio é constituído por projetos de que participei como designer gráfico autônomo. Desde o ano passado atuo também como professor temporário no mesmo curso em que me formei. Meu interesse pela área acadêmica surgiu justamente pela necessidade de compartilhar alguns conhecimentos adquiridos em tipografia e pesquisar esse campo mais a fundo.

Quando surgiu o interesse por tipografia?
Desde minha adolescência já “brincava” de desenhar logotipos imaginários e gostava de poesia visual. Comecei a pensar a tipografia de maneira um pouco mais consistente durante a graduação. Como fiz parte da segunda turma do curso de Design da UFES, nem sempre tínhamos todos os conteúdos à mão e isso me obrigou a correr atrás de conhecimentos específicos que os professores, muitas vezes, na época, não podiam me oferecer. Comecei a criar algumas fontes display, cheias de equívocos, mas que me ajudaram a começar a entender o que é uma fonte digital e algumas das questões mais básicas de um projeto tipográfico. Desde então, passei por muitas fases. Tranquei meu curso, fiz análise, fiz umas viagens e fiquei um tempo perdido na imensidão. Depois de recuperar o centro, minha volta à tipografia aconteceu por meio do meu trabalho de conclusão de curso, que deu origem à primeira versão da Maryam. Ainda trabalhei mais um ano e meio refinando seu desenho e ampliando a família antes de publicá-la comercialmente. O resto da história vocês já conhecem.
Quem são os designers/ tipógrafos em que você se inspira ou admira o trabalho?
Hermann Zapf, Adrian Frutiger, Jan Tschichold, Giambattista Bodoni, Gerrit Noordzij, Fred Smeijers, entre vários outros. Não necessariamente nessa ordem.

Quando surgiu a idéia de criar fontes para vender comercialmente?
Na verdade esse idéia não “surgiu”. Tive um trabalho considerável pensando e desenvolvendo a Maryam durante 2005 e 2006 e achei que valeria a pena publicá-la para ver se geraria algum retorno. O melhor caminho que encontrei para isso foi através do MyFonts, que mostrou ter uma equipe bastante profissional e, ao mesmo tempo, bastante receptiva a novos designers de tipos. O sucesso comercial – bem acima das minhas expectativas – gerou entusiasmo para continuar o trabalho. Minha segunda família publicada – a Scrivano – parece estar tendo um desempenho semelhante, o que me dá algum indício de que devo estar seguindo no caminho certo, se é que existe um.
Conte um pouco sobre o processo de criação. Inspiração, pesquisa e como é feito o teste antes de enviar a fonte.
Essa talvez seja a pergunta mais difícil de responder. Não sei onde se inicia meu processo de criação, pois cada projeto vem da construção de um pensamento que, por sua vez, se origina a partir de tudo que leio, vejo e ouço. E cada projeto de família tipográfica começa de um jeito diferente.
A Maryam, por exemplo, começou com um exercício de repetição de letras utilizando pena caligráfica de ponta larga, tinta e papel milimetrado. Depois de algumas semanas repetindo exaustivamente cada letra do alfabeto, obtive algumas dezenas de folhas de originais caligráficos que utilizei como modelo para os desenhos vetoriais. Essa seria a etapa seguinte: a tradução dos esboços manuais para o desenho vetorial no computador. Essa é uma etapa muito mais delicada do trabalho, pois cada pequeno detalhe faz muita diferença. Após chegar a uma solução formal para as letras, já pensando em suas conexões (uma vez que a Maryam teve a intenção de simular uma caligrafia de ritmo cursivo), a etapa seguinte foi transportar esses vetores para o software gerador da fonte digital. Essa terceira etapa é ainda mais trabalhosa, pois é o momento de fazer últimos pequenos acertos nas formas, ajustar os espacejamentos entre letras, os pares de kerning (na Maryam foram muitos) e os hintings. Além, é claro, de desenhar todos os sinais de pontuação, sinais diacríticos, símbolos monetários, matemáticos, &c.
A família Scrivano se originou não de um exercício prático com a pena, mas da observação de algumas caligrafias já existentes. As primeiras letras já surgiram direto no computador, embora seu desenho não indique isso. É claro que isso só foi possível depois de alguma prática anterior de caligrafia e da conseqüente compreensão da lógica na relação entre mão, pena, papel e tinta na construção da escrita. As etapas posteriores foram as mesmas.
Em relação à minha nova família em desenvolvimento, batizada como Jana Thork, o processo de criação começou a tomar forma não com uma pena, nem com um mouse, mas com um giz e um quadro. Os meios de representação da escrita disponíveis são muitos e é interessante que nos apropriemos deles como exploração consciente de linguagens. Uma fonte digital, entretanto, é um software. A ferramenta computador, portanto, sempre passa pelo processo criativo e interfere na forma como vemos as coisas.
A última etapa do meu processo é justamente a dos testes dos arquivos gerados (as fontes tipográficas digitais). Nessa etapa, geralmente trabalho com uma pequena equipe de colaboradores que testam as fontes em diferentes softwares gráficos, em diferentes sistemas operacionais. Após essa bateria de testes, caso sejam identificados pequenos bugs, estes são corrigidos e as fontes são finalizadas e enviadas para publicação.
Sobre a inspiração, prefiro utilizar a palavra “referências”. Criar famílias tipográficas é um trabalho árduo, que envolve muito mais “transpiração” do que “inspiração”. Não é uma coisa que acontece de uma hora para outra, mas o resultado de meses, anos e, às vezes, uma vida inteira de trabalho. Ninguém acorda um belo dia e decide “Hoje vou virar tipógrafo”. No meu caso, está sendo um processo natural. Minhas referências são sempre muitas: originais caligráficos, letterings, tipos, websites e livros. Principalmente livros.
Como é a relação entre você e o MyFonts? Foi fácil para um brasileiro vender fontes para um site internacional?
Publicar é fácil. Vender bem é que é difícil. Com o MyFonts, tenho um contrato de cessão não-exclusiva dos direitos de comercialização das minhas fontes. Ou seja, eu crio o produto, eles vendem, cobram uma comissão pelo serviço e me repassam o restante na forma de royalties. Simples assim. É um negócio como outro qualquer. O MyFonts me pareceu ser a empresa mais aberta à participação de novos designers de tipos e também a que proporciona maior liberdade. O próprio designer define preço de venda, descontos, além de ter um controle altamente profissional sobre uma base de dados que mostra quem são os compradores e quais fontes foram adquiridas. Qualquer um que tenha um trabalho minimamente interessante, pelo qual eles se interessem, pode conseguir publicar por lá. É uma boa porta de entrada para o mercado internacional. Entretanto, simplesmente publicar não significa que sua fonte será um sucesso e que você vai ficar rico. São dezenas de novas fontes sendo publicadas todo mês, a maioria delas de qualidade bastante questionável. O filtro é feito pelo próprio mercado. As mais vendidas tendem a ir entrando nos rankings, e como as pessoas precisam de um referencial, quando isso acontece, a tendência é vender cada vez mais. É lógico que isso não é o que acontece na imensa maioria dos casos. Eu até hoje não sei como consegui colocar minhas duas únicas famílias publicadas no ranking dos best sellers por um tempo, mas creio que isso seja um sinal de que muitas pessoas e empresas no planeta se identifiquem com o meu trabalho. Fico feliz.
O retorno financeiro é compensador?
Poderia ser melhor se comparado a outros tipos de negócio. Como esse retorno é baseado nas vendas, dependerá muito do sucesso ou não da família tipográfica em questão. É um mercado extremamente volátil em que tudo pode acontecer. Eu tenho uma tendência a enxergar o retorno financeiro sempre relacionado à quantidade de horas trabalhadas. Se formos fazer esse balanço hora trabalho x retorno financeiro, talvez o design de tipos seja ainda um dos piores negócios dentro das possíveis atuações de um designer gráfico. De qualquer maneira, no meu caso, ao menos o retorno mensal médio tem sido maior do que meu salário como professor substituto na Universidade. Mas em ambas as atividades tenho um salário indireto que é a satisfação pessoal. Se eu estivesse preocupado “apenas” com o retorno financeiro, teria feito economia, administração ou marketing, não é verdade?
Você acha que poderia viver somente com venda de fontes?
Tenho a meta de um dia chegar nesse patamar. Não que eu queira viver só disso. Pretendo investir também na minha carreira acadêmica que é onde me sinto à vontade. Mas acho que é possível viver somente disso sim. Para isso, entretanto, já percebi que teria que lançar pelo menos uma família tipográfica de qualidade (e não uma qualquer) a cada três meses. É uma meta absurda, mas tem gente que consegue. É claro que, na medida em que um designer de tipos vai tendo uma quantidade maior de produtos no mercado, a tendência é que esse retorno se torne cada vez menos volátil e mais estável. Mas creio que, para isso, sejam necessários ainda alguns bons anos de trabalho pela frente.

Você já tentou ou vendeu fontes para empresas de grande porte como Linotype? Se houve tentativa, como foi esse processo?
Ainda não. Um dia eu chego lá.

Qual a sua posição em relação à pirataria de fontes no Brasil?
É sempre um assunto delicado, mas que vale a pena ser abordado. Ainda temos aquela velha cultura do “jeitinho brasileiro” para todas as coisas. Em algumas situações isso pode ser positivo, pois esse poder de improvisação mostra nossa capacidade de se adaptar às dificuldades. Uma prova disso está no futebol. Mas quando estamos lidando com o mercado, esse nosso “jeitinho” pode acabar sendo um grande empecilho para o sucesso. Isso se reflete, entre outras coisas, na cultura da pirataria. Olhando por uma perspectiva mais macro, veremos que essa é uma cultura que não se sustenta. Se as pessoas nos países economicamente desenvolvidos tivessem essa mesma mentalidade, não existiria mercado de tipografia. Vejo a pirataria de fontes como um reflexo cultural de um sociedade desigual, com instituições públicas fraturadas pela corrupção e com cada vez menos credibilidade. Se olharmos pelo ponto de vista do negócio, comprar fontes é extremamente vantajoso, pois implica em um custo bastante pequeno dentro de um projeto de design remunerado. É uma oportunidade de oferecer aos clientes um maior nível de exclusividade nos projetos, mostrar que eles estão sendo valorizados e que cada centavo investido valerá a pena. Quando estou trabalhando em projetos de identidade visual, por exemplo, tenho tido o hábito de desenvolver tipografias exclusivas para a marca. É claro que nem todo designer gráfico dá conta disso, então utilizar novas fontes comerciais pode ser uma excelente alternativa para diferenciar a marca no mercado. O mesmo vale para qualquer outro projeto que envolve comunicação textual. Um livro, uma revista, uma embalagem ou um website também podem beber dessa fonte (aqui o trocadilho é intencional).
A pirataria pode ser uma solução eficiente num nível amador. Quando estamos lidando com profissionais, porém, isso se torna incompatível. O Brasil ainda representa uma fatia insignificante no mercado mundial de tipografia e acredito que isso pode ser mudado na medida em que nós, profissionais de comunicação de uma maneira geral, comecemos a encarar nosso próprio trabalho com mais seriedade. Sabemos que o sucesso ou o fracasso de empresas muitas vezes dependem, entre outras coisas, do nosso trabalho. Mudar a cultura do “jeitinho brasileiro” para um “novo jeito estratégico brasileiro” pode ser um caminho para sair da estagnação de séculos de ineficiência estrutural para um novo paradigma de crescimento qualitativo.
Que dicas e conselhos você poderia dar aos iniciantes na tipografia digital? (leitura, por onde começar, em quem se inspirar, etc.)
Em primeiro lugar, estudem. Tenham boas referências, aprendam a olhar de perto para as coisas e vocês terão bons resultados. Tipografia é uma área para quem tem muita paciência para pequenos detalhes. Nunca desprezem a história, pois ela pode dizer muita coisa sobre o presente. Tentem ter objetivos claros. Se não têm ainda, confiem na intuição. Se não têm ainda, experimentem e observem os resultados. Façam atividades físicas e criem um contato com a natureza, pois, acreditem, vocês vão passar muito tempo em frente a uma máquina. Observem e leiam as obras dos grandes tipógrafos e pensadores da área.
Alguns livros, em português, que recomendo para iniciantes:
BRINGHURST, Robert. Elementos do estilo tipográfico (versão3.0). São Paulo: Cosac Naify, 2005.

LUPTON, Ellen. Pensar com tipos. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

ZAPF, Hermann. Histórias de Alfabetos: a autobiografia e a tipografia de Hermann Zapf. São Paulo: Edições Rosari, 2005.
FARIAS, Priscila. Tipografia digital: o impacto das novas tecnologias.

Rio de janeiro: 2AB, 1998.

ROCHA, Cláudio. Tipografia comparada. São Paulo: Edições Rosari, 2005.
Para leitores mais avançados, recomendo:
CHENG, Karen. Designing type. New Haven: Yale University Press, 2005.

FRUTIGER, Adrian. En torno de la tipografía. Barcelona: Gustavo Gili, 2002.

NOORDZIJ, Gerrit. Letterletter: an inconsistent collection of tentative theories that do not claim any authority other than that of common sense. Vancouver: Hartley & Marks Publisher, 2000.

NOORDZIJ, Gerrit. The stroke: theory of writing. London: Hypen Press, 2005.

TRACY, Walter. Letters of Credit: a view on type design. Boston: David R. Godine Publisher, 2003.

JOHNSTON, Edward. Writing & illuminating & lettering. New York: Dover Publications, 1995.

4 pensamentos sobre “Entrevista com o designer Ricardo Esteves Gomes

  1. Olhá que legal…

    Além de trabalhar com Artes Gráficas a muito tempo, encaixando fontes dentro de fontes para criar meus trabalhos gráficos.
    Acabei encontrando um Design, respeitado, com o mesmo nome que eu.
    E…. quem sabe chego lá futuramente.

  2. Bom encontrar pessoas assim, que encorajam ao compartilhar conhecimentos! Tipografia é uma área do design muito bonita mas também requer muito estudo, não admite amadores!
    Parabéns!!!!

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